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domingo, 29 de março de 2020

O POÇO


(EL HOYO)
Espanha - 2019
Dir.: Galder Gaztelu-Urrutia


Surreal filme baseado numa premissa absurda (e angustiante): prisioneiros são mantidos em celas, uma dupla em cada, nem sempre do mesmo sexo, e a alimentação é provida através de uma plataforma localizada no meio da cela.
A alimentação vem do topo, a plataforma para por um tempo em cada andar (ou cela) para alimentar seus integrantes, que não podem estocar alimento, e segue sua viagem. Ou seja, quem está em cima come, quem está no meio come restos, quem está mais pra baixo rói os ossos, e quem está no fundo do poço passa fome.
O protagonista é Goreng, que custa a se adaptar e a entender o mecanismo - explicitamente uma representação da sociedade de qualquer país, rico ou pobre.
O filme é narrado em ritmo de pesadelo, bem dirigido por um estreante, mas que em dado momento parece ficar sem assunto, pois a estrutura do filme repete a da prisão: um lugar sem saída, aonde ou se sobrevive ao tempo de condenação, ou se pula fora, como alguns prisioneiros parecem fazer.
Mas é muito curioso e diferente das produções aonde alguém acorda num lugar, cercado de estranhos, sem saber como foi parar lá. Nesses se sabe que alguém sobrevive, aqui, não necessariamente.

sábado, 5 de abril de 2014

EXPRESSO DO AMANHÃ

(SNOWPIERCER)
Coréia / EUA / República Tcheca / França - 2013
Dir.: Joon-ho Bong



Quando um experimento para acabar com o aquecimento global dá errado, a Terra entra em uma nova era glacial e os poucos sobreviventes são reunidos em um lugar inusitado: um trem gigantesco, fruto da obsessão de um milionário megalomaníaco, e que leva um ano para cruzar o planeta, percorrendo 438.000 km, em meio ao gelo e cidades abandonadas.
A estrutura social lembra muito a de alguns países do antigo terceiro mundo: miséria e abandono total na cauda, e luxo, fartura e conforto na parte da frente (uma horizontalização simplória da pirâmide social)
Cansados da condição miserável em que vivem, os da parte de trás, liderados por Curtis (Chris Evans) e Gilliam (John Hurt) bolam um plano para tomar o controle do trem e subverter a ordem vigente.
Trama absurda (típica dos filmes apocalípticos da década de 80), em um filme B superproduzido e dirigido pelo diretor de "The Host", em seu primeiro filme em inglês, baseado em uma graphic novel francesa.
O trem é um show de cenografia: tem a parte miserável, um vagão-aquário, outros são um jardim, parque aquático, danceteria, salas de aula, etc.
O elenco é estelar: Evans, Hurt, a musa Tilda Swinton em um papel que lembra muito Jonny Depp em "A Fantástica Fabrica de Chocolates", Jamie Bell e Ed Harris.
É tudo muito ágil, com algumas cenas de luta com clara influência do cinema oriental, muita pompa, violência, mas que não chega a lugar nenhum. Se se levasse menos a sério, abandonasse a explicação idiota sobre a revolta na parte final, e se assumisse como filme B, talvez fosse mais divertido.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O FIM DA CIVILIZAÇÃO

(O-BI, O-BA - KONIEC CYWILIZACJI)
Polônia - 1985
Dir.: Piotra Szulkina


Filme distópico sobre um pós-hecatombe nuclear, aonde um grupo de pessoas esfarrapadas sobrevive em um abrigo subterrâneo, esperando por uma "arca" que os levaria para um outro abrigo, em melhores condições.
O lugar é infecto, quase não há comida e as pessoas vivem do sonho de escapar na tal arca - uma ficção, quase uma religião entre os sobreviventes, que parecem a beira da loucura: um junta colchões para não se machucar na falta de gravidade quando a arca for para o espaço; outros praticam escalada em cordas, achando que assim vão conseguir entrar na nave.
Pra complicar a situação, a abóbada que protege o abrigo está se partindo, o que exporia os sobreviventes ao inverno nuclear do lado de fora.
O visual é aquele típico dos filmes do leste europeu quando tratam de sic-fi: cenários reais, que deveriam ter sido fábricas ou coisa semelhante, pouca iluminação, desesperança, alguma filosofia e divagações.
A produção também pega carona no vício dos anos 80, com direito a neón e lâmpadas florescentes para gerar clima de frieza e desesperança, mas é o retrato da época, e os cineastas da região também pegaram carona no costume ocidental.
Obviamente, não é filme para qualquer público.

sábado, 6 de julho de 2013

CARTAS DE UM HOMEM MORTO

(PISMA MYORTVOGO CHELOVEKA)
URSS - 1986
Dir.: Konstantin Lopushanskyi


Pós apocalíptico filme soviético, aonde os sobreviventes se refugiam da radiação em bunkers, esperando por um futuro que certamente nunca chegará.
O personagem principal é o diretor de um museu, que vive num dos bunkers e se incube de cuidar de algumas crianças, cuja entrada foi proibida em uma área guardada pelo governo. O título faz referência as cartas que ele escreve para o filho, provavelmente morto durante os ataques nucleares (o filme até dá a entender que tudo começa acidentalmente).
Como é um filme da antiga URSS, (lembra um pouco o americano "The Day After", de 83) obviamente há um enfoque filosófico, com personagens divagando sobre a humanidade e uma citação pacifista no fim.
O filme não tem cor, apenas uma fotografia esmaecida em tom de sépia, na maior parte do tempo, e azulada em algumas outras cenas e uma câmera que às vezes parece fora de  foco, o que aumenta a estranheza do filme. Impressionam os cenários de destruição aonde o filme se passa (lembra muito "Stalker", de Tarkovsky) e o que não mostra: em uma cena o diretor do museu vai à um hospital, à procura do filho e entra na ala infantil. A câmera apenas filma seu rosto, horrorizado, enquanto se ouvem os gritos desesperados das crianças queimadas sendo socorridas pelos médicos.
Um filme extremamente deprimente, voltado para um público mais específico do que os fãs de blockbusters.